quinta-feira, 26 de maio de 2011

03:11

Tudo o que eu preciso é de uma boa noite de sono. Preciso da minha cama, preciso sentir a dor nas costas ao envergar o meu corpo e pousa-lo na vertical. Preciso repousar sob o travesseiro e esquecer-me de tudo, porém, por hora, não posso fazê-lo. Não é por algum motivo urgente, ou algo que me faça arrancar os cabelos, é só porque eu, nesse momento, por mais consciência que tenha de que isso seja o pior, não consigo me mover. Não consigo levantar da cadeira, abandonar o copo de whiskie e parar de analisar a fumaça que sai da minha boca, num movimento tênue e prosaico. Eu tenho esse lado incoerente. E essa incoerência, se exemplifica de uma forma simples: eu quero ser o mártir de mim mesmo. Mas, por hoje, chega. Três e onze da manhã e eu estou indo para cama.
A luz invade o quarto, eu escuto o barulho de um carro e de vizinhos, falando do resultado do jogo de ontem, exclamando que o alvinegro anda sem sorte. Olho no relógio, já são sete e quarenta e cinco. Levanto, me dirijo ao banheiro, como fizera, até então, sempre. Espere um pouco. Sempre? Quem disse? Percebo, então, que esse não é o meu ritual matinal. Percebo que deveria estar acordado desde as seis e quinze, para assim não ser repreendido por minha mãe, pelo terceiro atraso na semana. Isso está estranho, reluto comigo mesmo. Procuro por minha mãe e não a encontro. Pra dizer a verdade, mal reconheço aquele lugar como minha casa. Pergunto-me que dia seria hoje, já que, ao menos isso lembrara, faria aniversário nessa semana, mas, mesmo assim, não me permitir gravar o dia, pois estava atarefadíssimo com algo que não consigo lembrar. Bom, com o espírito inocente de um garoto, penso: vou matar a aula, então, e ficar brincando. Vou até o quarto, mas, estranhamente, não me deparo com a decoração que lembrara. Deparo-me com um quarto, aparentemente, mais amplo. No lugar dos carros de fricção que eu amava, postavam-se livros. Examino um que, pela cor, me chamou mais a atenção. “Fazedores de tudo”, o seu título. Abandono-o no lugar, com medo de estar bagunçando algo alheio. Sento ao chão, e no tradicional movimento que aplico quando estou confuso, ponho a cabeça entre as mãos, e fecho os olhos. O que eu vejo? Nada. O que eu sinto? Tenho uma barba.
Vou até o calendário, tentando não ficar apavorado por um garoto de... Um garoto de... A ideia de não lembrar quantos anos eu tenho, me petrifica. Olho a volta e tudo parece familiar e, ao mesmo tempo, estranho. Não consigo identificar o que eu penso, tampouco, o que eu sinto. Olho para o calendário e o fato de estarmos em 1973 não me surpreende. E isso, amigo, me assusta. Volto ao quarto e fico tentando analisar as coisas, os objetos estranho-normais; pego um disco, intitulado “Houses of the holy”, do Led Zeppelin. Coloco-o a tocar. Me pego cantando todas as músicas, de cor. Também não me assusto. Na verdade, fico feliz, pois gosto de gostar daquilo.
Depois de sentir um estampido no cérebro, penso: burro, como você não havia pensado nisso ainda? Vou até o banheiro, novamente, e me olho no espelho. A ideia de você não saber sua idade, de desconhecer em que etapa está ou o que aquilo te determina, em vida, é algo terrível. Talvez só não seja pior do que reconhecer-se como um homem de meia idade, com traços fortes, uma barba mal feita e com uma aparência cansada, capaz de, no máximo, ter seduzido meia dúzia de mulheres durante a vida.
Tento me recordar da noite passada, pensando, talvez, que possa ter tomado algum golpe na cabeça, que me tenha feito ter esse “pequeno” distúrbio. Não consigo. Tento me lembrar de quem eu sou e, nisso, também não obtive sucesso. Mas isso não interessa já que, volto ao quarto, como se meus pés fossem levados sem o meu cérebro dar o comando. Chego até a estante, pego o “Fazedores de tudo” que está com um marcador na página 176, deito na cama e começo a ler.
“ – Não gosto dela, pai. 
   – Eu sei, filha. Mas, poxa, já faz tanto tempo desde que sua mãe se foi e eu ando muito solitário.
   – Eu sei, pai. Desculpe-me se pareço um pouco infantil, ou egoísta. Mas, o fato de eu estar de mudança, aliado ao senhor ficar aqui, com uma moçoila vinte anos mais nova...
   – Dezenove.
   – Que seja. O fato de o senhor estar aqui, e eu não, para poder amparar-te, me parte o coração.”
Ouço o barulho da chuva. Olho no relógio, acordado, novamente, pelo grito dos vizinhos. Levanto, olho a mesa e lá estão os cigarros, o whiskie, a chave do carro e o notebook. Espera um pouco. Existiam notebooks em 1973? Corro de imediato ao espelho. Dessa vez, prefiro saber quem sou, antes de quando sou. Sou o mesmo homem que vira antes. Vou ao calendário e vejo: 29/09/2011.
Hoje é meu aniversário e o fato de eu saber que faço trinta e dois anos, me alivia. Alivia-me por dois minutos. Pois, agora, lembro-me de quem eu sou. Lembro-me de que, no dia cinco, do mês que vem, tenho diversas contas a pagar. Lembro-me que não durmo direito há anos e que não sou casado, tampouco, tenho alguém pra sentir que tenho alguém.
O que me assusta, na verdade, é ter sido mais feliz, digamos assim, sem saber a minha idade. Está certo que, geralmente, as pessoas são mais felizes em seus sonhos. Mas são, nesse caso, porque alimentam esperanças em vida, esperanças que, nos sonhos, ganham tonalidade e tato, fazendo com que tu sejas um ser humano realizado. Mas, obviamente, eu não espero “não saber a minha idade”, não quero sonhar com isso. Ou não. Talvez eu queira. Talvez eu queira acordar sem saber que eu preciso fazer certas coisas. Posso jogar videogame pela manhã e, à tarde, ir trabalhar. Posso chorar com medo do escuro, de noite, mas, pela manhã, acordar com uma mulher ao lado da cama, com que eu sei que transei, na última noite. Quero parar de rotular as coisas. Quero pensar que eu posso e aplicar isso. Não quero me policiar para rir, ou, em casos, pra chorar. Quero perder o medo; a expectativa que de não vai dar certo; assumir que eu sou eu, e que eu vivo por mim, não pelo que está a minha volta.
Enquanto isso. Enquanto paro e penso nesse sonho, por dez minutos. Faço três coisas: acendo um cigarro, sento-me no chão da sala, com a cabeça nas mãos e, mesmo perdido nos pensamentos, canto com um entusiasmo merecido, os versos sagrados de “The rain song”, adicionando, ao me dar conta disso, do quanto eu gosto do “Houses of the holy”.

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