Talvez eu seja o cara mais estranho do mundo. Ou, talvez, esse medo de ser, é algo que todos tem, tiveram ou, ainda, terão o desprazer de ter. Talvez eu seja só mais um idiota, também. Tudo é válido e possível. Tão possível quanto tu estar rindo de mim, agora, ou eu, enquanto escrevo, tendo uma boa, velha e bonita briga interna pra despejar tudo isso, aqui.
Estou na minha página cento e noventa. Analiso-me como um livro. Vou indo. Capítulo por capítulo, sendo alvo dos olhos de muitas pessoas. Sendo observado, julgado e, por que não, testado, por gente de todos os lados.
Recapitulando. Sou um cara de dezenove anos, desempregado, pseudoestudante e indeciso. Mas, se você está lendo isso, é porque me conhece e sabe, inclusive, que no capítulo onze, fui mordido por um cachorro e tenho a cicatriz evidenciada em minha perna esquerda, até hoje.
O que eu fiz nesses quinze mini capítulos? Nada. Do que eu me orgulho, até agora? Porra nenhuma.
Como todo bom livro, eu sonho em ser um best-seller. Ser lido por gente que me mereça, que saiba me interpretar. Mas, por outro lado, quero ter impressões erradas. Quero ser o babaca pra uns e o legalzinho pra outros. Quero ser divergente, polêmico e, ao mesmo tempo, amável. Cabe a mim, nos capítulos subsequentes, tomar um rumo. Algo que eu me orgulhe. Que faça eu me ler e pensar: nossa, esse cara é demais.
Eu tenho problemas, como todos os livros. Espera ai, me deixa esclarecer uma coisa: eu não sou o protagonista, eu sou o livro. Sou o cara que espera o ônibus enquanto a mãe do protagonista é assaltada. Eu sou o céu que ele olha, contempla e ri. Sou o amor dele, por ela e o desprezo dela, por ele. Sou tudo aquilo que envolve todos, que anda de um lado pro outro, tentando te entreter.
Eu não consigo ter uma expectativa sobre o que virão nos próximos capítulos. Não consigo ser otimista ou, tampouco, pessimista, sobre o meu futuro. Sobre o que o autor desconhecido vai fazer comigo. Se ele vai me fazer ficar com a mulher que eu sonho. Ou se eu vou ficar atenuando os bandidos, subestimando os pobres, ou, até mesmo, inundar uma cidade enquanto me disfarço de tempestade.
Eu quero ter mais vinte capítulos, no mínimo. Porém, não perco o medo de virar a página. De, aos poucos, descobrir o que está por vir. De me descobrir, na verdade. Tenho medo de não corresponder. De ficar dentro de uma estante, jogado. Tenho medo de ser esquecido. De ser posto numa cesta que, assinalada por uma placa simplória, fica disponível para doação.
Chega dessa história, porque a estória em questão, sou eu.
“Ô, tu! Tu mesmo que tá me escrevendo! Vê se dá um jeito ai, mermão. Quero mais do que ser um objeto de sebo. Quero mais do que passar de mão em mão numa biblioteca. Quero ser eu. Quero deixar de ser palavras soltas. Quero ter início, meio e fim. E no meu fim, por favor, capricha, porque, amigo, tu tá me fudendo nesse desenvolvimento.
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