segunda-feira, 8 de agosto de 2011

21:12

Dos invernos que me lembro, o daquele ano fora o mais rígido, com certeza. Desde a temperatura glacial, as chuvas torrenciais. Sem contar no desânimo, a escassez de vida e o sopro mórbido das arvores que pareciam ganhar vida para contribuir com a atmosfera sombria que emanava sobre Porto Alegre.
Recordo-me de andar sozinho pelas ruas, com a chuva caindo sobre o meu rosto e lavando o sangue que corria por minha face e vestes; lembro-me de, naquele momento, acender o cigarro. Tinha vinte e três anos e a cinza seria infinita, ou, pelo menos, duraria até a hora em que eu partisse deste mundo. Existia um sentimento em mim que me fazia acreditar que aquele cigarro serviria de consolo para o que houvera antes; de anestésico para a dor que insistia em alojar-se em cada pedaço do meu corpo; serviria como catalizador de tudo de ruim que me cercava. E foi. Porém, assim como disse antes, ele duraria para sempre.
Lembro-me de ter tragado por volta de um terço dele, isso três anos depois, quando voltei a sentir aquela culpa repentina. Dei mais duas tragadas e ela se foi. Momentaneamente, com certeza.  Cada vez que a fumaça invadia o meu corpo, eu sentia como se absorvesse o mundo e tudo o que nele tinha de pior, porém, ao expulsá-la, o que saia era apenas o mundo e a fumaça. Toda a porcaria que entrava, ficava ali, dentro de mim. Corroendo. Alimentando-se das coisas boas que eu havia guardado e que viviam apenas na minha memória.
Na metade do cigarro, cinco anos depois do primórdio, eu já havia amadurecido bastante. Conservava o mau humor, o hábito de ser o genitor das vidas que tinha dentro de mim e a inabilidade de colocar o lixo pra fora. Ainda tinha alguns amigos e, vez em quando, eles me suportavam. Gostavam de dar os conselhos que julgavam mais sensatos e necessários para que eu, enfim, pudesse ser um homem de verdade ou, ao menos, alguém que não lhes causasse vergonha. Eram meus amigos porque não me conheciam. A casca que, para eles, já era algo digno de pena e desprezo, eles conseguiam ver, porém, o que se passava aqui dentro, nem eu mesmo tinha certeza do que era. Só sabia que era nublado. Congestionado. Frio, mas não inabitável, já que a cada nova tragada eu sentia como se um trem, repleto de pessoas sem face, chegasse e descarregasse todos os seus passageiros em mim, numa espécie de pensão vitalícia, ruim, porém, barata.
A decisão mais plausível, com certeza, seria fechar a pensão. Parar de absorver o mundo, a fumaça e tudo aquilo que vinha junto com ela. Porém, não conseguia. Não pelo vício, mas, sim, pela culpa. Eu precisava ser um mártir. Precisava aguentar aquilo tudo e, ainda por cima, sem reclamar. Não tinha o mínimo direito de, sequer, mencionar uma expressão triste, irritada ou qualquer outro sinal de desaprovação que fosse. E não o fiz.
Hoje, ao completar trinta anos, a brasa chega ao filtro. Devo ter mais umas duas, com sorte, três tragadas. Aqui  vai a primeira e, com ela, escuto o grito de uma menina; aqui vai a segunda e, junto dela, o grito de uma mulher; tive sorte e, aqui, vai-se a última, juntamente com a visão de dois corpos no chão. Um deles é o de um homem. O homem que, no meio daquele inverno gélido, eu matei na frente de sua filha e esposa, enquanto perseguia um assaltante e, ao errar o tiro no marginal, o atingi em cheio. O outro é só uma sombra. Vou até o centro, onde matei aquele homem. Meu cigarro acabou. Saco a arma do bolso, peço desculpas, baixinho, pela milésima vez e, num piscar de olhos, ou numa tragada de cigarro, se preferir, torno-me a sombra.

Um comentário:

Unknown disse...

Lindíssimooo Vini!
Bá leva a sério, tu tem um enorme talento que com certeza terá um lindo futuro. Tem minha torcida!