sexta-feira, 8 de julho de 2011

15:22


 Maio, sete.

Quando completei treze anos, decidi que iria tornar-me policial. Não porque meu pai ou avô eram, essas coisas de linhagem de família, já que meu pai era apenas um arquiteto. Com todo o respeito aos arquitetos, mas, ô profissãozinha mais ou menos. Sem emoção. Bom, esses arquitetos podem não ter emoção, mas, com a grana que eles ganham, eu venderia a minha emoção por uma pequena porcentagem da remuneração deles. 
O mais estranho, além de ser um inspetor de polícia, em Liverpool, de não ter conseguido conquistar sequer uma mulher, ao longo desses trinta e dois anos, de morar sozinho desde os dezessete, o mais estranho de tudo isso é eu, um marmanjo feito, modelo da antiga masculinidade, já que, de fato, o que faço é, no mínimo, perigoso e, portanto, me concede o status de um homem digno, corajoso e, até mesmo, um exemplo a ser seguido, o mais estranho é eu preservar essa mania, desde pequeno: ter um diário. E isso, eu estou escrevendo no mesmo, agora. Gosto de relatar, uma vez ou outra (mentira, eu escrevo todas as grandes porcarias que faço, aqui, sempre), o que acontece comigo, o que acontece com os outros, a minha volta, e o que eu queria que acontecesse, embora, conscientemente, saiba que não virá a tornar-se real. 

Maio, treze.

Prendi dois marginais, após o jogo dos Reds contra o Birmingham. Os malditos estavam tentando roubar uma loja de eletrônicos, enquanto o povo estava entretido, bebendo e comemorando a vitória. Nunca fui muito fã de futebol. Até não desgosto, sabe. Mas, se fosse pra escolher um esporte, escolheria o tênis. Às vezes, durante a noite, tenho o sonho de estar quebrando o tabu de um britânico vencendo Wimbledon, de novo. Voltei ao distrito e, como era domingo, poucos estavam por lá. Só estavam os que queriam hora extra, os que tinham brigado com a mulher e eu, que queria hora extra e não tinha mulher. Ah, já ia esquecendo. Ela também estava. Lucy. Lucy media exatos um metro e sessenta e três. Gostava mais de Hendrix do que Beatles, apesar de nascer e crescer aqui. E, detalhe: sempre negava meus convites para sair. Parecia ter medo de mim. Embora, vez em quando, quem ficava com medo era eu. Ela, em alguns dias, parecia ser outra pessoa. Chegava em minha mesa, com o ar mais sensual que já vi, olhava-me nos olhos e, com um sorriso de canto, dizia:
- Bom dia, Ed
Eu ficava imóvel, sempre. E, quando tomava coragem de, depois de dois dias, falar com ela, ela parecia ser outra pessoa. Totalmente tímida, gélida e não dando a mínima bola pra mim. 

Maio, dezessete.

Entrei num caso novo. Por milagre, o chefe confiou-me o caso do mês, por assim dizer. Acho que nenhum dos outros inspetores estava disponível. Deveriam estar de férias, ou bêbados, já que, sempre ao resolverem um caso, ganhavam, religiosamente, bonificações que duravam semanas. Fui encarregado de investigar um assassinato, atrás do museu. Homem jovem, morto por três tiros na cabeça. Aparentemente, não era nada amador, seu executante. Nenhuma testemunha. Eis a primeira peça do meu quebra-cabeça. Mas, como não tenho vida, posso dedicar a minha pseudo ao trabalho. 

Maio, dezenove.

Não tenho nenhuma pista, ainda, sobre o assassino. Ele, por outro lado, não matou mais ninguém. Ninguém que nós tenhamos descoberto, ainda, ao menos. Carl me convidou para almoçar, hoje. Ele estava voltando das férias. Conseguiu reconciliar-se com a esposa, depois que, a mesma, presenciou ele tentando flertar com a Lucy, ao fazer-lhe uma visita surpresa, aqui no distrito. Foi um puta escândalo, naquele dia. Carl parecia feliz, contando-me da ida à Manchester, visitar a família dele. Ele era um sujeito legal. Um dos poucos, além de mim, naquele distrito (só eu me acho legal). 

Maio, vinte.

Carl é encontrado morto. Três tiros. Não chorei. Mas, criminalmente falando, fiquei intrigado. O chefe começou a me pressionar. Disse que tinham um ou dois inspetores voltando das "merecidas férias" e que, se eu não desse conta, ele os colocaria em meu lugar, a frente das investigações. Dediquei-me mais ainda ao trabalho. Não me entenda errado. Não foi porque Carl havia morrido. Ele era legal, mas, mesmo assim, não valia a minha vingança. Não consigo nutrir um sentimento forte por alguém desde... Bom, não me lembro desde quando. Dediquei-me mais, pois queria ganhar mais que um arquiteto. Queria guardar a emoção pra mim e não gostaria de ter que vende-la. Queria três semanas de bonificações, ganhando dinheiro, enchendo a cara e transando com algumas vagabundas, já que a Lucy era mais bipolar que o tênis do Murray.

Maio, vinte e dois.

Tenho escutado barulhos estranhos toda a noite. Toda vez que sento-me à varanda do apartamento, com o cobertor sobre mim, o diário e a caneta no colo e o costumeiro cigarro, escuto alguns ruídos. Sinto como se houvesse alguém me espionando, bisbilhotando por ali. Não me importo com o frio. Gosto de senti-lo cortar-me o rosto, secar os lábios e congelar a alma. Ele me remete um estado de transe. Ali, na sacada do segundo andar, entre às arvores, eu esqueço o quanto sou ruim. Esqueço do quanto não sou. E me lembro que não tenho vontade de nada. Não me importo de ser só uma casca. Sem ninguém, sem ódio, sem aquele calor no peito que, aos treze anos, perdi. Mas, já chega de falar sobre esses sentimentos. Esse diário é pra mim, e, como ninguém o lerá, não preciso falar de mim, para que os outros me conheçam. Eu sei de mim e escrever num papel não vai mudar o que eu sou.

Maio, vinte cinco.

Cada noite, os barulhos aumentam. Mas, sinceramente, não me importo. Eles já tornaram-se normais e juntaram-se ao vento, pra criar essa atmosfera. Lucy estava daquele jeito, hoje. Exalando sensualidade. Indo e voltando, pra passar pela minha frente. Quando chegou a minha mesa, fez o típico ritual facial e disse:


- Oi, Ed.
Não sei como eu perdi o medo e disse:
- Eaí, Lucy. O que manda?
Ela não se surpreendeu, pelo contrário, gostou. 
- Não sei, você tá sempre me convidando pra sair e, quando eu venho aqui, tentar falar contigo, tu não me dá a menor bola. 
- Não é isso, Lucy. É que, as vezes, quando eu tomo coragem, você nega, veementemente. 
- Amanhã, as vinte e três horas, no Café.
- Fechado.

Eu estou com esse diálogo na memória o dia todo. Esperei anos por isso. Tá, nem tantos. E, não me entenda errado, de novo. Eu não amo a Lucy. Eu, apenas, sinto vontade de gastar as minhas três semanas de bonificação com ela. Eu sabia que, na verdade, tinha que estender o turno, amanhã, para, pelo menos, fingir que estava progredindo nas investigações. Mas, sinceramente, não me importaria de receber uma nova advertência do chefe. Tinha certeza que continuaria naquele caso, já que, certamente, ninguém iria querer assumi-lo com duas mortes sem nenhuma pista deixada e, obviamente, iria preferir que eu fosse demitido, ao invés de perderem o próprio pescoço numa investigação dessas. Vou dormir e me aprontar para amanhã.

Maio, vinte e seis.

Que tipo de babaca eu sou? Só eu não sabia que ela não iria até o Café? Fazia tempo que não sentia um ódio tão grande. Odeio pessoas com essa espécie de dupla personalidade. Pra ajudar, hoje está muito mais frio que o habitual, e a sensação de estar sendo vigiado é perturbadora, pra falar a verdade. Escuto um barulho, entre as árvores. Já cansei dessa palhaçada, vou tirar esse engraçadinho que fica me espionando à socos, daqui. Vou ali e já volto, para continuar esse relat... 

Maio, vinte e sete.

Maio, vinte e oito.

Maio, trinta.


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