Na segunda, estava eu no terraço do apartamento, com o costumeiro cigarro, com o violão e com as nuvens que encobriam as estrelas, embaçando as minhas ideias. Passava das três da manhã, quando eu tentara arranhar algumas notas de Live forever, e arranhava os ouvidos do Castor, meu velho cachorro fedorento, que subira até ali sem que eu pudesse notar, de imediato. Provavelmente, estava com fome. Bicho desgraçado, está sempre com fome. Mas, por mais anuviado que estivesse o céu, por pior que fosse a minha performance dos Gallagher, por mais insuportável que estivesse o fedor do Castor, eu estava feliz. Tinha música. Tinha céu. Tinha cigarrro. E não tinha medo.
Na terça, sem me importar com o importante, fui para praia. Sentei-me à areia e parei. A orla vazia, o céu claro, o mar limpo e aquele barulho. Aquela sensação de infinito, de vida longa. Tudo isso, juntamente com a descontração inexplicável, me trouxe a maior paz da minha vida.
Era quarta e eu não tinha cigarros. Saí pra comprar e, como troco, levei um susto. Ao descer na estação do trem, vi um mendigo que sempre rondara aquele lugar, desde sempre, na verdade, cair nos trilhos. Quando o trem o esmurrou, com a violência esperada, ele não tinha medo nos olhos. Não tinha nada. E esse nada, amigo, eu sei bem o que é.
A quinta demorou a passar. Depois de brincar um pouco com o Castor, antes de sair pro trabalho, voltei a estação que vira aquela cena, no mínimo, insone, ontem à tarde. Peguei o trem e procurei esquecer o nada que vi naquele nada. Espera um pouco, me deixa corrigir: [...] procurei esquecer o nada que vi naquele eu. Eu conhecia aquilo. E, se conhecia. Se me assustava. Se eu realmente soubera o que vi. Aquilo era, no mínimo, parecido comigo. Cheguei em frente ao serviço e o Carlão, segurança do prédio, já estava lá. Dois metros de pura simpatia, o Carlão. Sempre me critica pelos cigarros e diz que, se isso não me matar, vai fazer eu matar alguém. Ah, esqueci de mencionar. Eu trabalho num museu. Sou curador sênior, limpo vidros, faço meu café, e ponho a culpa nos visitantes quando alguém me pega fumando. Trabalhei feliz, naquele dia. Fechei um acordo pra uma exposição renomada, sobre qualquer coisa que não me interessava, mas foi o que fez eu levar uns bons elogios da chefia, os primeiros em tempos, na verdade. Não ganhava mais, pois preferia
ir atrás das exposições e peças que me interessavam, mas essas, vez em quando, davam dinheiro à instituição.
Ah, a tão esperada sexta. Ela chegou e eu nem vi. Não ansiei pela mesma. Pra mim, era só mais um dia daquela boa semana. Era. O telefone toca as nove e meia da manhã, enquanto eu tomava café e fumava, escondido atrás de uns quadros de um pintorzinho barato. Era ela. Disse que sentia a minha falta e eu disse que ela era uma puta. Incrivelmente, isso não me afetou. Segui com o café e com a fumaça lisa, que eu jogava
na cara das mulheres desprovidas da vaidade, pra não dizer pior, sobre os quadros do rapazote. Ainda, na sexta, eu teria recebido um convite pra ir tomar umas cervejas com a Lena, outro pra jogar cartas com os meus amigos bêbados e, por último, um do meu pai, pra visita-lo. Tomei coragem, e fui até a casa do velho, coisa que não fazia há horas. Ao chegar lá, vejo ele com um sorriso no rosto, o cigarro entre os lábios. Ele me abraça, por longos dois minutos, depois, me olha e diz:
- Covarde.
É sábado, eu estou no hospital. Minha mãe segura a minha mão e diz que é um milagre, que conseguiram um pulmão de última hora. Demoro alguns minutos pra entender que tudo não passara de um sonho, ou, então, de uma daquelas lendas que diz: "quando você está para morrer, você vê a sua vida inteira passar diante dos seus olhos". Não vi a minha vida. Vi a vida que eu queria ter. Vi que conhecia o vazio e que eu não queria. Vi a covardia estampada em mim, nas minhas atitudes e o meu pouquíssimo talento pra música. Vi que eu preciso olhar pro céu e sentir o vento bater na cara. Vi que os cigarros custam caro. Mas, por outro lado, dinheiro é pra ser gasto.
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