quinta-feira, 23 de junho de 2011

22:13

Nunca, em vida ou pensamento, falarei algo com tanta certeza, quanto agora. Embora os relatos, fatos ou afins, sejam citações que não nos projetam dúvidas, a não ser, é claro, pela credibilidade dos mesmos, nunca contei algo com tanta consciência, quanto contarei, agora.
Vez em quando, nós concordamos. Mas, isso é raro, diga-se de passagem. Até nas simples ações cognitivas, o safado arruma um jeito de não agir como eu digo. Mas, hoje, tem algo que nós compartilhamos, concordamos e, sem dúvida, amamos.
Eu deveria ficar ali, o tempo todo, fazendo o meu trabalho, mas, como outrora falei, ele não me escuta. Ficar no meu posto o dia todo, então, torna-se meio inútil. Quando dou essas escapadas, eu gosto de variar, ou melhor, gostava. Gostava de sair do trabalho, ir pra qualquer lugar que me fizesse ser humano, ao menos, por algum tempinho. Que me fizesse respirar algo puro, ao invés da típica fumaça que o meu “sócio” absorvia, diariamente. E, obviamente, não adiantava falar, né. Por vezes, saía sem rumo, só para andar por aí e me sentir um pouco independente, como se tivesse minhas próprias pernas e não dependesse de um reles corpo para locomover-me. Foi aí, então, numa dessas andanças, que eu a vi.
Entrei num ônibus pra socializar e nem a percebi. Depois de algum tempo, então, reparei na voz fina e no sorriso leve, que deslizava pela face dela. Ela estava num diálogo qualquer, com um alguém qualquer, que, obviamente, não me interessava. O meu interesse, ali, era admirar. Era sonhar ter tato para, ao menos, resvalar nela e sentir o calor da pele. Sentir que, embora soubesse que ela, com certeza, existia, não era mais um sonho, um devaneio por uma mulher qualquer. Ela, então, desceu. Eu, então, voltei.
De imediato, invadi o quarto do meu sócio, que lia uma coisa qualquer, enquanto fumava e bebia um copo de qualquer coisa. Saltei pela fumaça e adentrei nele. Não. Não sou um homossexual. Uns me chamam de consciência. Já outros, de chatice.
Ao perceber que eu retornara ao corpo, ele só fumou mais um cigarro. Não terminou a garrafa de qualquer coisa, embora ficasse por muito tempo ali, até terminar a leitura. No outro dia, o fiz pegar o mesmo ônibus. Mandei-o não prestar atenção, de imediato, para sentir o mesmo que eu sentira, ontem. Imaginem a minha descrição, porém, com mais êxtase. Concordamos em amar, ali. Naquele ponto. Concordamos que o que é real, palpável e, até mesmo, achado num ônibus, pode ser o que te conforta pelo resto vida. Pode ser o que deita ao seu lado e te olha, em silêncio, por horas. Que entrelaça os dedos com os seus e ri. Que te conhece. Sabe do teu mundo e do mundo que tu conquistarás. E, o melhor de tudo, sabe do mundo de vocês dois.
Eu disse que, vez em quando, nós concordamos. Na verdade, não teria como ele não aceitar uma paixão consciente, se me permites o trocadilho. Embora amemos a mesma mulher, partilhemos o mesmo gosto pela leitura e música, ainda luto contra a fumaça contínua e as milhares de garrafas de qualquer coisa.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ninguém saberia dar essa definição de amor no meio de uma história como tu. Ah, o desenrolar, o suspense, a tragédia! Muito bom mesmo! Nem parece tu? Óbvio que parece! É tu. Tu tens esse talento. Achou tua ajuda aqui? Eu me deliciarei vendo teus problemas. Onde acaba isso e onde começa a qualquer outra coisa. Essa junção, essa mistura é perfeita... É ali que tá essa escrita. Demais! DEMAIS!