Como um fotografo começa a vida? Bom, eis uma pergunta que eu jamais saberei responder. O motivo disto é ambíguo. Talvez seja por eu não ter me tornado um fotografo, ou, quem sabe, por a minha vida ainda não ter começado.
É outono. O dia nasce nublado, como de costume, e eu entediado, como de costume. Sou uma criança com boas expectativas da vida. Sou o segundo melhor aluno da classe, perdendo apenas para todos os outros que ficam em primeiro lugar. Mas, sinceramente, não posso reclamar de nada. Não hoje. Porque hoje, dez minutos atrás, aproximadamente, achei o fio solto da manga do meu suéter e comecei a puxar, para ver o quanto ele duraria até arrebentar. Metaforicamente, isso foi ruim. Nikon FM, abandonada na esquina do restaurante do meu pai, e, agora, minha.
Engraçado lembrar-me disso hoje, ao passar por uma loja e parar diante à vitrine, de olho em todos aqueles modelos, com diversos tamanhos, utilidades, pixels, designs e preços. Parece que o sonho virou capital, que a utopia de ver o movimento parado, de registrar a vida num papel e de tirar o fôlego sem sequer abrir a boca, acabou. E acabou mesmo. Pra falar a verdade, pra mim, ela nunca começou. Quando tinha idade para acreditar nela, ela foi destruída. Apesar de utopias serem constituídas por infinitas coisas boas, positivas, elas também possuem seus vilões. A diferença, comparada à vida real, é que nelas, eles não são imbatíveis. Além, é claro, da esmagadora diferença entre a coragem de um herói, e a minha.
Falo nesse tom sombrio, de desilusão com a minha paixão, porque não me tornei um observador das coisas belas, que registra os momentos legais do mundo, para os caras legais do mundo olhar e dizer: olha, que legal. Tornei-me um fotografo legista. Desses que tira foto dos cadáveres, dos carros batidos, da família, naquele aniversário chato e, principalmente, tornei-me um desses que fecha os olhos e aperta o botão. Ah, e, além disso, tornei-me viúvo aos vinte e seis anos.
Quando eu não estou no trabalho, eu tenho algo que eu gosto de fazer. Algo que me faz parecer estranho, aos olhos de muitos. Que me faz parecer estranho, aos meus olhos. Que faz os outros parecerem estranhos, a outros olhos. Sento-me à beira da janela, e fico ali, parado. Da janela do terceiro andar eu vejo muita coisa. Vejo acidentes. Vejo animais fazendo suas necessidades – subentende-se pessoas e animais -. Vejo tudo e o excesso de nada é o que predomina. Os andares pesados, as fisionomias estressadas e, em alguns, o medo. Não esse medo complexo e, até mesmo, bonito. Um medo prosaico, que, por esses tempos, tendeu a aumentar devido a um marginal que cometera alguns assaltos e, num deles, matou uma moça.
Por vezes, quando sentava à janela, tinha a câmera em mãos. Procurava contradizer-me, achar que ainda existia esperança, que a utopia estava presente e era benéfica. Desisti, depois de inúmeras tentativas em vão. Comecei a levar outras coisas. Certo dia, levei um caderno e uma caneta, o que resultou num jogo da forca comigo mesmo e alguns desenhos que, aparentemente, haviam sido feitos por uma criança de doze anos. Hoje, eu tinha outra coisa.
Sentei-me ali, como sempre fizera e desejei ter sorte. Ter toda a sorte que nunca tive na vida, que eu gastasse toda a sorte que eu pudesse ter, mas, eu precisava dela. Ali e agora. E ela veio. Era pesado, mas, inexplicavelmente, eu não sentia. Manuseava como se fosse um exímio usuário. Esperei por longas duas horas, até ele apontar na praça. O relógio no meu pulso apontava oito e meia da noite. Na tv, passava o telejornal. Na rua, não passava ninguém. Ninguém exceto ele, e ela, também. Ela não me era estranha, creio que já a vira algumas vezes pelo bairro. Esperei o momento certo. Ele arrancou a bolsa dela. Ela correu. Ele se escondeu, e riu. Eu mirei, sorri, e atirei.
Tornei-me um desses que aperta o botão. Tornei a minha falecida esposa, morta aos vinte e três anos, num assalto em frente à sua casa, a mulher de um herói. Não um desses utópicos. Um desses que fotografa. Que sabe o momento certo. Que teve sorte umas três vezes na vida. E que, ao menos uma vez, abriu os olhos ao apertar o botão.
Um comentário:
Tuas histórias são a mais refinada forma de tragédia. Dotada de uma angústia gostosa com o fluir das linhas. És um exímio escritor, caro Vinicius. Um dos negativos, ainda assim um daqueles que dão orgulho.
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