Desde pequeno, eu adoro pluralizar as coisas. Do modo de falar ao modo de entender; da impressão errada a ideia ruim. Sempre o fiz e sempre gostei, na verdade.
Dezoito de março de 1997. Eis a data do início do meu singular. Eis o início do meu renascimento, segundo a minha mãe. Ela é, sem clichê, a melhor mãe do mundo. Me aguentou nesses vinte e seis anos e ainda tem forças pra tentar me ver bem. E, nessa última tentativa, ela foi mais forte ainda, ou, melhor dizendo, encheu o saco e chutou o balde. Digo isso, ou melhor, afirmo isso, já que os dois enfermeiros que me pegaram praticamente me fizeram desmaiar, de tanto apertar o meu pescoço.
Acordei num quarto. Pequeno, diga-se de passagem. Conseguira notar, também, que nada mais do que uma cama, três livros e um vaso sanitário, compunham aquele ambiente que exalava uma densa morbidez. Era uma situação pra entrar, no mínimo, em desespero. De imediato, achara que tinham me sequestrado, porém, ao virar o pescoço e sentir uma dor enorme, lembrei-me dos enfermeiros. Acalmei-me e sentei à beira da cama. Acredito que, depois de dez minutos, entrou um médico, com aquela típica cara de tédio, que não passa sentimento algum, acompanhado da velha Meg, minha mãe. Diziam eles que eu permaneceria ali, por algum tempo, afim de acabar com o meu problema de plural. Inacreditavelmente, acatei a decisão e fiquei ali, imóvel; a Meg veio me fazer um cafuné e, logo após, deixou a sala. E eu fiquei. Queria ficar. Mas, logo, mudaria de ideia.
Antes de eu mudar de ideia e enlouquecer, deixa eu te explicar uma coisa. O problema de plural que eu vim, ou melhor, que me trouxeram aqui para curar, não é nenhum daqueles citados acima. Dada vez, experimentei heroína. Outra vez, usei três doses em cinco minutos. Outras vezes, vendi tudo, de casa, e comprei tudo, de drogas.
A ideia era ficar por ali até conseguir expelir toda essa porcaria do meu corpo. Era. Depois de algumas horas, trancafiado naquele quarto, sem ninguém, sem cigarros, sem pessoas – sim, apesar de ser um reles drogado, eu adorava a companhia de quem quer que fosse – e, nessa falta de tudo, sobrava silêncio. E esse silêncio, te faz pensar no motivo de estar tudo tão quieto. E esse motivo, amigo, acaba comigo.
Um dia se passou. Oito. Foram oito alucinações que eu tive e descobri, posteriormente, que eram, de fato, alucinações. Descobri porque eram estupidamente óbvias, já que, sem dúvidas, eu não poderia estar afundando no chão; afogando-me e vendo peixes dourados na minha própria urina; tentando trancar os raios de sol que mergulhavam janela à dentro, ou essas coisas, assim.
-Valeu, Noah. Bom trabalho hoje, cara. Essa cena vai te render Cannes, rapaz.
- Ah, obrigado, Lou. Vou render Cannes se eu levar a Julie lá, aí sim.
Julie era minha noiva. Estava me esperando na saída do set e, sim, eu falei isso em voz alta só pra fazer uma média com ela. As coisas não andavam as melhores, lá em casa. Mas, onde elas andam tão bem assim, não é?
Peguei o script e levei pra casa, pra dar uma olhada no que virá depois disso.Quatro da manhã e eu termino de ler o script. Julie escuta o barulho da chave virando, porém, não consegue me segurar a tempo. Tenta me ligar, inutilmente, já que eu havia jogado fora o celular. Não se preocupem, deixei um bilhete explicando as coisas. As coisas não andavam bem, mas, com certeza, ela merecia essa consideração.
Cinco da manhã e eu chego na clínica. Peço três coisas, ao fazer a ficha para internação. Um gravador. Uma conversa por turno com qualquer pessoa e que, ao menos, me deixem fumar ali. Já estou fazendo muito por mim, em (tentar) deixar a heroína.
Dois dias, sete horas e alguns minutos, depois da internação de Noah, ligaram-me, pedindo pra ir até a clínica fazer uma identificação de um corpo que, por hora, acreditavam ser dele. Não quis acreditar quando o vira. A magreza comum; o cabelo bagunçado; o charme britânico; as veias cortadas.
Meu nome é Meg. Quando concluíram o caso, deixaram de usar o gravador como prova criminal e decidiram enviar-me. O trecho, acima, é parte dele. Não gosto de citar a parte pré póstuma, por assim dizer. Me machuca. Acho que ele vendeu a própria história, alterando uma ou outra coisa, para criar coragem. Criar coragem para sair daqui e tentar algo novo. Quem sabe, se a mostrasse para o mundo e visse, ele mesmo, sendo ele e vivendo-a, seria mais fácil de aceitar aquilo que lhe era reservado, ou que fosse o melhor pra ele. Ele gostava das coisas com "s" no final. Amava fazer tudo diversas vezes. O problema, foi pluralizar o vício. Noah era meu filho. Era viciado em heroína e, desde criança, seu sonho era ganhar Cannes. Partiu sozinho, daqui. Sem "s". A morte, com s no final, ele morreu inúmeras vezes, enquanto vivia.
2 comentários:
Ótimo, cara, ótimo! Tu é o rei das ironias certeiras!
Não quero me repetir nos comentários, então, sempre que quiser saber o que achei do texto leia aquele comentário que parece uma ópera! (desde que continue nesse nível genial, é claro)
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